abril 18, 2010

"Estou farta de ser pobre", dizia-me ela com um sorriso esbatido e um olhar trémulo, que visão triste que tinha acabado de presenciar, eu próprio me arrepiei, com aquele olhar de cigana. E foi como cada patamar, quanto mais subia mais as pernas me doiam, neste caso quanto mais ouvia, mais me custava a ouvir.
"-Então e luxos poucos não é?"
E dizia-me ela:
"Poucos, muito poucos, aliás quase nenhuns"
"Nem jantar fora"- dizia eu, quase incrédulo..
"Poucas vezes, e quando é, vamos ao Macdonals"
Acho que por pouco não me fiquei ali, e penso que como é feio o egoismo (e secalhar até o meu) das pessoas, que esbajam rodos de dinheiro em jantares, e em porcarias que se formos a ver bem não precisam.


 E também me surge na mente, que ficamos bastante aliviados quando damos "caridadezinha" para uma ajuda por telefone, ou para uma instituição,  e mal possivelmente sabemos nós se o nosso vizinho do lado está mal, ou se passa fome. Aliás ou até aquele bébe muito querido que vemos no primeiro direito, que de dia está sozinho, e provavelmente no sufoco da fome que passa, sobe fragilmente para a bancada da cozinha, e queimando-se no fogão, deitando sangue da sua fina pele, derruba a panela sopa e do chão sujo, frio e pisado com as suas pequenas mãos desliza e lambe-as de seguida, pela fome que tem, e no meio da imundiçe e porcaria há que aquele ser vivo está sujeito, nós no andar de baixo abrimos garrafas de champagne de cinquenta euros, e fumamos tabaco que custa três e sessenta e cinco.
 Custa? Não a nós, mas aos "que estão fartos de ser pobres"

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