Eu lembro-me bem.
Eu contava sempre, tu corrias muito e tinhas muito jeito para te esconderes.
Às vezes perdias de propósito e quando eu me escondia, fingias sempre que não me vias. Só para me deixares feliz.
A unica coisa que me lembro depois disso, foi de contar os degraus que davam para o teu quarto.
Eram 54. 54 para cima, 54 para baixo.
No início, quando era para te ver, eu saltava de dois em dois e a mãe ralhava-me.
“Cuidado! Ainda vais cair! Cuidado.”
Mas eu não lhe ligava. Queria era começar a brincar contigo.
Às vezes tu estavas de bom humor e então punhamo-nos os dois a brincar aos carrinhos, ou a fazer desenhos.
Tinhas tanto jeito para os desenhos. Ainda tenho aquele desenho do super-homem que fizeste.
Para mim és aquele super-homem.
Quando estavas de mau humor mandavas-me embora e dizias que não gostavas de mim. Eu saía do quarto a choramingar e tu vinhas atrás de mim a pedir desculpa e a dizer que não podias brincar porque estavas muito cansado.
E eu ficava todo contente e ficava ao teu lado, a olhar para ti, todo sorridente.
Depois morreste.
E eu nunca te perdoei não me teres dito que ias embora. Não me avisaste, não me preparaste. Mentiste-me e pronto!
Lembro-me perfeitamente que nessa tarde, depois dos 54 degraus para cima, tu tinhas acabado de acordar e sorriste quando me viste a entrar todo trapalhão e a subir para a tua cama.
A mãe ralhou-me por te ter acordado e tu disseste que não fazia mal.
Depois tossiste, fechaste os olhos e morreste.
Foi nesse dia que aprendi que 54 degraus podem tornar-se em 1000 assim de repente.


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