Apetece-me morrer, desejo absurdo mas realista, quando todos os dias me deito, e todos os dias quando apagado a luz penso e repenso e volto a pensar que se por aquela porta entrar alguém e me mate, eu sei lá como, um tiro, umas facadinhas, um gás qualquer...
Adormeço.Quando sonho sou tudo aquilo que quero ser, o que desejava ter, o que me apetece, qualquer coisa.
Acordo. A sorrir ou não, não penso nem no tiro, nem nas facadinhas, nem no gás. Levanto-me, vaguei-o pela sala, como um cavalo assustado pela luz que teima em sair pela clara-boia. Não tenho pensamentos de Morte durante o dia, só a noite me trás esse desejo mórbido e como disse: absurdo, talvez seja pela escuridão, pela falta de som que se faz sentir durante esse tempo, não sei, as coisas aqui adormecem quando o Sol se põe, ficam mais calmas, ficam sem cor, sem reacção, as coisas aqui tombam e desmaiam, as cadeiras quase se desfaem, nem vou falar dos próprios candeeiros que parecem enforcados, quietos, pálidos, os sapatos que ouço lá em baixo ficam cada vez menos audiveis, até pararem de vez, a dona deles desmaiou? Não me interessa, estou completamente contanimado pelo ambiente, desmaiado, reclinado, tombado, recuso-me a descer dezoito degraus.
E nesta cadência decadente, vem o mesmo filme, a mesma história, o mesmo drama, a mesma falta de luz, o mesmo desejo.
Boa noite Morte, eu vou com as aves.

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