junho 06, 2011


Mavilde mora na água-furtada que é mais alta de Alfama, é tão discreta que quase ninguém sabe onde mora, dizem que é descendente do Amor que nasceu entre uma flôr e um querubim, mas ninguém sabe se é verdade, apenas sabemos que Mavilde é quem acorda Lisboa mesmo antes da madrugada rasgar meia dúzia de raios sobre as colinas, é que só por dignidade pura e dura canta da sua água furtada que é mesmo a mais alta de Alfama e espanta passaros que vão espalhar bondade pela Mouraia, que do seu beco mais escuro onde mora o Luciano Bem-Haja de profissão bebedo, mas que por mais afogado em carrascão que esteja e mesmo se estiver deitado lá prá Rua do Capelão tombado num cadeiro onde a seu lado se encontra a sua fiel amiga que nunca o larga mesmo naquela rua onde bem o podia deixar e ir ouvir os fadistas de raça e ver as negras chinelas mais as saias de listas deslizarem pelas pedras do chão, pedras essas que Luciano Bem-Haja tonto por Mavilde e pela carroça que tinha apanhado, numa taberna lá para um beco que cheirava a rosmaninho ainda da procissão, lambe as pedras do chão.
Mavilde pisa o caminho com a sua posse herculea que faz frente a Adelaide da Facada, feia, desgrenhada e tatuada, que comparada com Mavilde é a erva daninha da Mouraria, já Mavilde é pelo menos para Luciano Bem-Haja o seu Limão amarelo de amargura, mas prefere morrer abraçado à garrafa do que a ela, porque enquanto as garrafas se substituem umas por outras, rolam pelo chão, Mavilde é insubstituivel, e por Luciano saber isso é que prefere ter o travo do vinho arroxeado pelo tempo nos lábios do que o sabor do peito dela pelo seus corpo, pois abençoados são aqueles de nada pedem, pois não tem como se desiludir e Luciano, bebedo de profissão, segue apenas duas coisas: esta frase, e a voz de Mavilde que ecoa desde Alfama e acorda a madrugada.

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